Eu tinha 17 quando engravidei (do primeiro)

Casos reais – A minha história é mais padrão do que eu imaginava que seria. Quando contada assim, vejo que não sou uma em um milhão. Mas na época parecia ser. Recém tinha saído do colégio e começava a realização de um sonho: ingressar na faculdade. Era o auge dos meus 17 anos!

Mas já na primeira fase da faculdade recebi (ou promovi) uma surpresa que mudou todo o rumo da minha vida para sempre: dois risquinhos azuis em um teste de gravidez descartável. Estava grávida.

Mantinha um relacionamento beirando os 3 anos, entre idas e vindas e, de repente,  estávamos grávidos. A minha reação? Comprar outro teste. Foram 5 testes de diferentes marcas. O moço da farmácia dizia “menina, você não se convenceu ainda? ”. Me convenci. Mas só após o quinto teste. E decidi: vou assumir meu filho independente do que o pai dele pensasse sobre isso, minha família ou qualquer outro que quisesse opinar. Eu fiz, eu assumo. Mas nem tudo são flores e nem saem como nosso planejado.

Não morávamos juntos, mas já tínhamos comentado sobre esse passo num futuro bem distante, papo de adolescente, sabe? A primeira pessoa que soube, como todo e bom clichê, foi minha amiga (hoje madrinha de coração do meu filho). Na minha família contei para meu irmão mais velho. Combinei com ele para nos encontrarmos em uma praça perto de casa e contei. Ele chorou muito, mas diferente dos demais, não me advertiu sobre o que eu perderia, apenas me disse – pode contar comigo, estamos juntos nessa. Foi o que me encorajou a contar a novidade ao pai da criança. Éramos muito jovens e nessa idade, por mais que haja amor, não sabemos o que esperar do outro. Mas contei.

Ele chorou. E eu entendi pela primeira vez o que era o choro de desespero. Talvez não fosse isso que ele sentisse, mas eu senti que era.

Novidade contada ao papai, o próximo passo era contar aos meus pais. Eu não tinha um bom relacionamento com meu pai, então, contei para minha mãe. Se ela também chorou? Bastante. Eu não sabia porque a pessoas choravam ao receber essa notícia. Se nem eu chorei, porque eles choravam? Tempos depois entendi. Meu pai, naturalmente, ficou sabendo pela minha mãe. Tudo estremeceu na minha casa, mas logo estávamos todos discutindo os nomes do ano.

Não posso dizer que foi uma gestação tranquila. Não sou dessas que esquece tudo de ruim que aconteceu depois que viu a carinha linda do bebê mais fofo do mundo.  No quesito saúde, a gestação andou bem. Tive poucos enjoos, no início perdi peso, o que me fez pensar que a gestação não seria tão ruim assim (17 anos, né?). Por outro lado, eu não fazia a linha gestante tranquila e serena. As preocupações eram inúmeras e como optei por não manter meu relacionamento com o pai do meu filho, os palpites e conselhos vieram de container, mesmo sem nenhuma encomenda.

No dia em que meu filho nasceu, minha amiga Carolina estava comigo. Aliás, ela esteve presente em toda a gestação, me ouvindo, me apoiando e me puxando a orelha. A gravidez nos leva do céu ao inferno, parece que os hormônios brincam com a gente e comentam “olha lá a louca perdendo o controle outra vez, conseguimos”! E nesses momentos é essencial alguém que esteja ao nosso lado de verdade, por amor.
O relógio marcava 6h da manhã de sexta-feira, nove anos atrás. Acordei com dores, cólicas estranhas e aquele nó na garganta. “Será que é agora”?

Fomos à maternidade uma, duas, três vezes. Alarme falso era o diagnóstico. A noitinha, dores mais fortes, sem bolsa rompida. Parecia que minhas costas queriam se abrir igualzinho ao mar vermelho.
Meu pai e minha mãe me levaram novamente à maternidade que ficava longe de casa. Durante o trajeto, muita fila, trânsito intenso e as costas se abrindo.

Aprendi em um curso de mamães de primeira viagem (que fiz por imposição da minha mãe), a famosa respiração do parto. Das 18h de sexta até às 5h de sábado eu usei ela. Indução para dilatação com ocitocina na veia e muita ansiedade para ver a carinha linda do bebê mais fofo do mundo. Às 5h13 ele nasceu. Tenho certeza porque vi no relógio, fazendo as contas de quanto tempo fiquei naquela situação de trabalho de parto. Trabalhei muito nesse parto.

Minha mãe esteve comigo o tempo todo. Me contando piadas, me apavorando e me consolando. Ela foi essencial. Meu amuleto da sorte e sem ela eu não teria forças.

Força mãe! (a mãe era eu). “Tô vendo a cabecinha, respira e empurra”, dizia o médico com sotaque gaúcho. Duas enfermeiras me ajudaram na empurrada final e um alívio tomou conta. Acabou. Digo, começou.

3,5 quilos, 52 centímetros. Forte. Saudável.
Colocaram ele no meu colo. Era a cara do pai.
E era mesmo. Cabelos pretos espetados, pele macia e suave. Um olhar decidido, não parecia perdido. Ao contrário: a perdida era eu. Aquele ser humano agora dependia de mim para tudo e essa responsabilidade não me pesava, fazia eu me sentir viva. Tão viva que parecia de poderia enfrentar o mundo por ele.

O que senti naquele momento é indescritível. E não estou preenchendo mais um clichê. A sensação é de que você ganhou um presente que desejava a bastante tempo e você quer mexer, brincar, testar e amar… mas veio sem o manual.

Dói? Bastante. Mas quando você vê a tal carinha linda do bebê mais fofo do mundo, tudo vale a pena. E valeu.

 

 

Nove anos depois – novo relacionamento e agora uma menina. É linda! E a cara do pai (de novo!) Um novo aprendizado: como criar dois irmãos de pais diferentes? Tema para um próximo textão. Se a Emilly nos permitir.

 

História verídica, nome fictício.

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